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Sonhos de um Anjo ( Pris Jardim) Parte 3

     
      Tomei meus remédios, que eram tantos, que dormi por horas. Não sei explicar quanto tempo fiquei ali dormindo. Ao longe escutava uma voz me chamando.

-         Angel? Acorde! Preciso falar com você.
-         Beto? É você?
-         Sim meu anjo! Vamos conversar um pouco.
-         O que você quer me falar?
-         Sobre você e a vida que você está jogando fora.
-         Caramba! Até em sonho e tomo bronca!?!
-         Meu anjo, você sabe que poderia ter morrido naquele acidente. Estou aqui para lhe mostrar o risco que você e toda sua turma está correndo.
-         Porque “toda a minha turma”?
-         Vocês são jovens e acham que tem a vida toda pela frente, que nenhum mal pode lhes acontecer, se arriscam com se fossem imortais e não é bem assim!

-         Estou começando a gostar desse cara! Parecia que vocês não tinham nada na cabeça! Esse fantasminha até que é um cara legal.
-         Posso ou não continuar?
-         Sim, sim continue, está ficando interessante!

-         Roberto, que papo é esse? Está até parecendo aquelas velhas carolas!
-         Me escute com atenção. Eu faleci por imprudência de um amigo, que como o seu, estava bêbado. Vocês acreditam que curtir a vida se resume em se drogar, sexo, festas e outras futilidades. Vocês se enganam profundamente. Estou falando tudo isso porque lhe amo e não posso ver você se destruindo só para se sentir aceita por uma turma.
-         Não faço isso para ser aceita!
-         Para ser aceita e chamar a atenção de seus pais. Mas isso vai destruir a sua vida! Existem outras maneiras de “curtir” a juventude.

      Eu quase aos prantos respondi à ele:

-         Você fala isso porque não precisa mais de ninguém e muito menos ser aceito!
-         É pena que você pense dessa forma. Assim sendo, estou indo. Fique com Deus!

      Acordei chorando e assustada. Tudo parecia tão real, e aquelas palavras do Beto me doeram tanto que talvez ele realmente tivesse razão ou eu estava ficando maluca.
      Os dias se passaram e o Beto não veio mais me visitar. Senti sua falta, mas a vida continuava. Voltei para minha vida de sempre e para o cursinho.

-         E aí Angel? Quase fez jus ao nome e virou anjo hein?
-         Cala a boca Hiroshi! Cuide de sua vida!
-         Calma Angel, não precisa falar assim com ele!
-         Até você Sami? Que decepção!

      Fabiana se aproximou de nós e nos ofereceu um cigarro. Naquele momento lembrei de minha conversa com Roberto e decidi não aceitar o tal cigarro. Todos me olharam. Não dei importância e me afastei. Eles ficaram falando que eu tava amarelando, mas não liguei.
          Fiquei sabendo que o Roger ainda estava muito mal no hospital. Eu não sabia se deveria ou não visita-lo, nunca gostei de hospitais. Depois da aula, Samara e eu resolvemos ir ao shopping, mas nem aquele lugar me trazia mais alegria e descontração. Eu não conseguia parar de pensar em tudo o que o Roberto me disse naquela noite.

-         Angel, você está estranha, até parece que perdeu o gosto pela vida.
-         Não é nada disso, só acho que deve existir outro jeito de aproveitar a vida.
-         Lá vem você de novo! Já disse que aquilo foi só um sonho.
-         Pode até ter sido um simples sonho, mas foi muito real. As vezes tenho vontade de chama-lo novamente mas não sei como.
-         Porque você não tenta o telefone ou manda um e-mail?
-         Vai brincando, vai!
-         Na boa Angel. Se eu fosse você, procuraria um psicólogo, é loucura sonhar com alguém que já morreu e ainda por cima levar uma lição de moral.

          Voltamos para casa quase sem se falar. Dias depois, Samara me ligou pra me convidar para uma festa, mas eu recusei. Ela ficou louca do outro lado da linha.

-         Angel, você está doente?
-         Não, é que realmente não estou a fim de ir, acho que ainda é muito cedo para voltar às festas.
-         Bem que o Hiroshi me avisou que você não iria, quase brigamos por conta disso.
-         Mas vocês voltaram?
-         É, ele tomou um fora da loira da sala ao lado e vou consola-lo.
-         Vocês não tem jeito mesmo, vão acabar se casando. Tchau Sami, boa festa para vocês!
-         Então tchau né!

          Depois daquele telefonema, fui me deitar. Me lembrei de quando Roberto era vivo, de nossos passeios, de nossas brincadeiras, sentia muito sua falta e agora depois de 10 anos de sua morte eu conversava com ele, mas como isso poderia ser possível? Várias perguntas vinham à minha cabeça.
          Existe vida após a morte? O céu existe? Deus existe? Ou eu tinha batido a cabeça com muita força e estava ficando louca? Em meio à esse turbilhão de pensamentos adormeci.

-         Oi meu anjo!
-         Beto? Mas como pode? Estou acordada? Meu Deus, estou ficando louca!
-         Acalme-se, você não está louca e eu estou aqui de verdade, nos seus sonhos, mas de verdade.
-         Não, não pode! Você está morto.
-         Feche os olhos meu anjo. Imagine um campo florido, muitas árvores...agora abra os olhos.
-         Não pode ser, como você fez isso?
-         Gostou?
-         Estamos no parque municipal onde sempre vínhamos fazer piqueniques nos finais de semana, como isso é possível?
-         Sente-se, se acalme que eu lhe explicarei tudo, já está na hora de você saber.
-         Eu morri?
-         Só me escute, por favor.

Continua...

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