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Nossa Vidas- 10º Parte ( Pris Jardim)

        
        - Senhora Carla?
                    _ Sim sou eu.
      _Eu sou empregado do senhor Rodolfo, ele me pediu pra vir buscar as crianças e lhe entregar esse bilhete.
Peguei a carta, minha mão tremia muito, mas abri o bilhete e li:
       - Meu amor, mande as crianças pelo José, em breve vou mandar buscar-lhe também, e assim que der vou lhe ver.
       - Me desculpe pela demora, mas meu pai está muito doente.
Eu lia aquilo e não acreditava no que eu estava lendo, finalmente nossas vidas voltariam ao normal.
Mandei as crianças e fiquei esperando o dia de me juntar a eles.
Algumas semanas se passaram, e a cada dia meu coração me dizia que ele nunca mais voltaria, mas conservava a esperança que um dia Rodolfo voltaria para me buscar.
Numa tarde fria de inverno parou uma carruagem em minha porta, eu me levantei do sofá, onde estava tomando um chá para tentar me esquentar, quando bateram à porta.
Meu coração disparou, pensei- Meu amor veio me buscar.
-      Senhora Carla, boa tarde.
-      Boa tarde José.- Mal podia disfarçar minha decepção.
-      Trago essa carta do senhor Rodolfo para a senhora.
Ele me entregou a carta e foi saindo, eu ali parada sem entender direito o que estava acontecendo gritei para aquele homem:
-      Espere, onde está o Rodolfo?
Com um olhar distante ele me respondeu:
-      Essa informação eu não estou autorizado a dar, mas a carta explica tudo.
Ele se virou, entrou na carruagem e se foi sem dizer mais nenhuma palavra.
Fiquei ali olhando  a carruagem se afastar com a carta na mão sem saber ao certo o que fazer, então resolvi abri-la, nela dizia:
      
Carla, o tempo que passamos juntos foi bom, te agradeço pelos nossos belos filhos que você soube educar bem.
      Dentro desse envelope existe uma quantia em dinheiro que  acredito de para você se manter por algum tempo, pode ficar com a casa que você gosta tanto, sempre vou lhe enviar algum dinheiro, você não vai morrer de fome,isso te prometo.
      Meu pai faleceu e minha mãe pediu que eu ficasse com ela e ela adora nossos filhos, mas infelizmente ela não te aceita, eu por outro lado preciso de uma companheira, como não somos casados de fato vou me casar com a filha de um fazendeiro amigo de meus pais. Não se preocupe, ela adora nossos filhos e vai cuidar deles como se fosse dela.
   Não me procure, nem tente rever nossos filhos, pois estou fora do país.
   Seja feliz e recomece sua vida.
                                                              Rodolfo.

Cai sentada na frente da porta, parecia que haviam enfiando um punhal em meu peito. Meu amor iria se casar com outra, não veria mais meus filhos, ele me mandaria dinheiro...
Minha cabeça rodava, eu não podia acreditar que depois de tantas coisas que passamos agora ele me deixará só, sem meus filhos, sem minha família, chorei tanto sentada ali na soleira da porta que nem vi que escurecerá.
Fiquei alguns dias sem ter coragem nem de me levantar, afinal levantar pra que, pra que viver. Tudo havia perdido o sentido para mim.
No meio desse carrossel de emoções, pensando se valia a pena viver, recomeçar... buscando algum motivo para seguir lembrei-me da carta que meu irmão Marcelo havia me deixado, fui procurá-la.
Depois de algum tempo a encontrei, estava amarelada e meio amassada, afinal já haviam se passado 10 anos.
Sentei-me no sofá velho da sala e comecei a lê-la.
Ela começava assim:

Querida irmã, sinto muito por tudo o que aconteceu, e que de certa forma fora culpa minha. Não sou teu irmão de sangue e sim fruto de uma traição de um amigo de nosso pai, que vendo o amigo em maus lençóis decidiu ajudá-lo e nossa mãe como até o momento não tinha ainda conseguido engravidar resolveu aceitar aquela situação, afinal não tinha outra escolha, então viajaram e assim que a criança nasceu eles voltaram já com o bebê o que não gerou nenhuma desconfiança da sociedade.
Eu sempre te amei e quando descobri essa história por acaso, pois ouvi certa vez uma briga de nosso pai com seu amigo, nosso pai dizia:
Como pode você vir aqui e querer seu filho de volta o filho é meu ponhasse daqui pra fora.  Ele disse aos berros, bem ao estilo do papai.
Quando o amigo se foi eu entrei e cobrei explicações, afinal eu estava feliz por não estar em pecado como pensava.
Foi aí que papai descobriu meus sentimentos por você e me proibiu de contar pra quem quer que fosse e foi aí que começaram suas viagens, afim de tirá-la de perto de mim.Mas quanto mais tempo passava longe de você mais eu a amava, por isso sou culpado por sua infelicidade.
 Nosso pai pensando que você estaria melhor longe só criou mais confusão e sua infelicidade.
Quero que saíba que o papai te ama muito, ele chora toda noite, a mamãe também te ama e já te perdoou.
Agora que você sabe toda a verdade peço que me perdoe.
Estou deixando um numero para nos correspondermos sem que ninguém saiba, assim posso ajudá-la no que for preciso e te manter informada das coisas da família.

Carinhosamente seu irmão Marcelo.

  Ao terminar de ler mais uma vez me senti sem chão, busquei naquela carta um motivo para continuar a viver e só encontrei mentiras de uma vida inteira que de um certo modo ajudaram acabar com minha vida.
Odiava o papai por eu não parar em casa, odiava o Marcelo por ter me contado tudo aquilo, e agora o que fazer com essa informação e aquele número depois de tantos anos será que ainda existia, eram tantas coisas tantas perguntas, fiquei horas pensando em tudo aquilo e no que fazer que acabei por adormecer no sofá.

Continua...

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Pris Jardim